Uma cena que se repete lá no bar de cervejas em que eu bato o ponto nas quartas ou quintas-feiras.

Uma cena que se repete lá no bar de cervejas em que eu bato o ponto nas quartas ou quintas-feiras.

Uma cena que se repete lá no bar de cervejas em que eu bato o ponto nas quartas ou quintas-feiras. Grupos de homens pançudos e barbudos e tatuados com seus canecos de ales nas mãos, trocando idéias sobre o lúpulo neozelandês Nelson Sauvin e sua possível utilização em outras receitas da BrewDog, ou sobre a última novidade da cervejaria tal - "é uma bosta", tem sempre um para maldizer.

Até que entra no ambiente a gatinha, a jovem perfumada, completamente constrangida por desafiar aquela atmosfera meio vicking, e já arrependida de ter seguido o conselho da amiga de comprar uma cerveja especial para o namorado. Ela pode estar de vestido estampado, ou vestir qualquer outra coisa. Loira ou morena, peituda e decotada, comportada e maquiada. Não importa. Aliás nem precisa ser especialmente bonita. A moça entra na loja e todo palavrório erudito sobre Sorachi Aces e Cascades se transforma em silêncio.

Invariavelmente a moça faz uma expressão de desespero ao encarar as prateleiras e geladeiras com dezenas e dezenas de IPAs, DIPAs, blondes, wits, weizen, goldens, blondes, brunes, etc etc e mais etc.


"Mas do que ele gosta?" toma a frente o vendedor, com uma barba de 30 centímetros em direção ao peito tatuado com o desenho de uma granada envolta em asas. "Ai...não sei." Elas nunca sabem. Certamente não namoram o felizardo há tanto tempo assim, e nem é presente de aniversário. É só um presentinho de no máximo uns quarenta e poucos reais, como recomenda a revista feminina para depois do quinto ou sexto encontro com sexo.

Acabam levando alguma pilsener de nome alemão ou tcheco que elas já viram em algum lugar e torcem para que não estejam se confundindo com a preferência do ex-namorado.

A moça vai embora com suas pernas e curvas sendo devidamente medidas e memorizadas pelos gordos bebedores de ales, que em silêncio admitem trocar toda a erudição sobre maltes, lúpulos e cepas de leveduras por um mero olhar dela; no silencioso e bem escondido balcão de negócios dos seus erros e arrependimentos, uma noite com aquela ali valeria ao menos umas duas caixas de Westvleteren XII.

Mas a moça vai embora, seu perfume se perdeu no cheiro de cigarros e lúpulos, o sonho saiu andando em direção ao namorado que, se entender de cerveja, coitado, vai ter que fazer um esforço danado para ficar feliz ao ser presenteado com uma Czechvar. E a conversa retorma o seu ritmo. "É uma bosta!" reitera o amigo ainda mais enfático.

Nicolau Olivieri

Postado originalmente em https://www.facebook.com/groups/cervejaartesanalsaopaulo/permalink/802317463192550/

Postado em 27-08-2015 por Contos Cervejeiros 0 463

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