Choooooooope, Luís!

Choooooooope, Luís!

Choooooooope, Luís!

Sou carioca, rubro-negro, e curto o exílio em SP desde 2011. Sem arrependimentos. Mas sempre que posso dou uma passada na terra natal para matar as saudades dos amigos do escritório carioca, da família, e do chope do Gaúcho, um bar que fica ali na conturbada esquina da R. São José com a Rodrigo Silva, bem em frente ao Buraco do Lume e defronte da banca de jornal do Giuseppe. O que tem o chope do Gaúcho de tão especial é simplesmente o fato de que não tem nada de especial, e justo por isso ele é rigorosamente perfeito.

O Rio de Janeiro é naturalmente quente, e os anos recentes em SP me fizeram achar que ele está inclusive mais quente do que normal. Quando o carioca, numa quinta ou sexta-feira, dá o logoff, fala um palavrão baixinho depois de respirar fundo, tipo "uffff....p...que o pariu....", e desce para a rua no centro da cidade, a última coisa em que ele vai pensar é qual a quantidade de malte utilizado para a produção do chope que ele vai baber no bar, quanto de milho ou outros adjuntos pouco nobres a Brahma colocou, ou se o ciclo de maturação foi corretamente feito por todas aquelas semanas.

O Gaúcho não tem cadeiras, tem somente umas bancadas onde apoiamos o chope. O aperitivo pode ser queijo palmira, ou pão na chapa à francesa. O Marcelo, nosso atendente preferido, pede o chope para o tirador de chope Luís, normalmente aos gritos de "choooooooope, Luís!!!" (que segundo alguns dá pra ouvir desde a Nilo Peçanha), e em poucos segundos você terá sua bebida. Ninguém está lá para degustar nada. Ninguém está lá para destilar erudições gastronômico-lúpulo-etílicas. E você provavelmente jamais verá um amigo seu colocar uma foto no Facebook do chope do Gaúcho - coisa que, convenhamos, é uma façanha nos tempos atuais.

Como em qualquer bar carioca, no Gaúcho falamos de futebol, falamos de problemas de trabalho, falamos de alegrias de trabalho, falamos dos nossos filhos, falamos das nossas mulheres, falamos das mulheres, contamos histórias, brigamos, assistimos o rapa passar e os camelôs saírem correndo, compramos uma bugiganga do camelô com cara de esfomeado que passa vendendo alguma coisa que acende luzes e faz barulho e voa - e que vai quebrar no instante seguinte. De vez em quando passa um insuportável grupo de pagode gritando no nosso ouvido para rivalizar com os músicos peruanos ou bolivianos (ninguém sabe ao certo) que fazem do Buraco do Lume seu palco preferido entoando "The Condor Pasa" naqueles instrumentos de sopro deles. No Gaúcho não falamos de cerveja. Mas bebemos muita cerveja.

Eu estava lá na sexta-feira agora, bebendo meu chope, e me perguntei qual outro estilo combinaria com aquele momento. Eu confesso que não consegui pensar em nada melhor do que aquele bom e velho chope da Brahma. Nem witbiers, nem weiss, nem weizen (tem diferença entre essas duas?), nem sessions, nem nada. Porque a cerveja perfeita para aquele calor e para aquela confusão é uma cerveja discreta, familiar, estável e previsível - e que permita seja bebida bem gelada. Uma cerveja que serve de pano de fundo para os amigos, e que não faz questão de ser a protagonista do final de tarde e começo da noite - eventualmente até da madrugada, e não raras vezes o Gaúcho baixou as portas e ficamos lá dentro tomando várias saideiras enquanto o pessoal jogava água nos nossos pés para limpar o chão.

Não importa quais venham a ser as minhas futuras aventuras cervejeiras, porque vou ter sempre aquela vontade de pegar uma porra de um avião, ficar num charuto de metal a não-sei-quantos mil metros de altura (praticamente arriscar a vida no meu ponto de vista), para chegar lá pelas seis horas da tarde, encostar no balcão refrigerado onde estão expostos potinhos de coalhada que nunca vi ninguém comer, e esperar o grito "choooooooope, Luís!!!"

Nicolau Olivieri

Postado originalmente em https://www.facebook.com/groups/cervejaartesanalsaopaulo/permalink/805294416228188/

Postado em 27-08-2015 por Contos Cervejeiros 0 493

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